TERRITÓRIO NÃO NEUTRO
TERRITÓRIO NÃO NEUTRO

Como agir de forma contra-hegemônica usando as mesmas plataformas digitais das bigtechs
por HENRI FIGUEIREDO*
I. O NÓ NO ESTÔMAGO
Você abre o celular. São 150 mensagens acumuladas em cada um dos, digamos, cinco grupos de política que você é membro no Whatsapp. O mesmo link, o mesmo meme, o mesmo textão — repetidos, sem comentário, sem contexto, sem diálogo. Dá um nó no estômago. Esse nó tem nome, tem causa e tem endereço. Não é erro seu. Não é falta de comprometimento com a causa. É o efeito previsível — e, para alguns, desejável — de uma infraestrutura tecnológica que não foi construída para emancipar e sim para vender prendendo sua atenção. A sua atenção. A nossa atenção coletiva, fragmentada e revendida a quem pagar mais — inclusive a quem quer nos derrotar nas urnas.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como Morrem as Democracias” nos ensinaram que a morte das democracias contemporâneas raramente acontece por golpe militar — acontece por erosão lenta, por dentro das próprias instituições. O que eles não previram com clareza suficiente é que parte decisiva dessa erosão hoje ocorre dentro dos nossos bolsos, nos dispositivos e aplicativos que carregamos 24 horas por dia.
A filósofa Marilena Chauí foi precisa ao definir o que é a internet que usamos todos os dias: “Um enxame de teias privadas, institucionais, comerciais, governamentais – conectadas numa nebulosa informacional insondável” – e, mais do que isso, “um novo exercício da ideologia dominante”. O sociólogo Manuel Castells, em A Sociedade em Rede, já havia mapeado como o poder na era digital não se concentra mais apenas no Estado ou no capital industrial — concentra-se em quem controla os fluxos de informação. E Edgar Morin, recentemente falecido, com sua Teoria da Complexidade, nos alertou que sistemas complexos como as redes digitais não podem ser compreendidos por partes isoladas: o todo é maior, mais imprevisível e mais perigoso do que a soma de seus componentes.
Não é território neutro. Nunca foi. E, no Brasil, o campo democrático e popular precisa parar de agir como se fosse.
II. A MÁQUINA E SEUS DONOS — E OS DOCUMENTÁRIOS QUE JÁ CONTARAM ESSA HISTÓRIA
Em 2018, veio a público o escândalo que deveria ter mudado para sempre nossa relação com as plataformas digitais: a Cambridge Analytica. A empresa britânica de marketing político coletou, sem autorização, dados psicológicos detalhados de mais de 87 milhões de pessoas no mundo inteiro – extraídos diretamente do Facebook. Com esses perfis, construiu estratégias de microssegmentação eleitoral que influenciaram o Brexit, a primeira eleição de Donald Trump e, há fortes evidências, as eleições que levaram Jair Bolsonaro ao poder em 2018 e Javier Milei à presidência da Argentina.
Essa história não é nova. Ela foi contada, com rigor e coragem, por cineastas e jornalistas muito antes de virar escândalo político. Quem ainda não assistiu, tem hoje acesso fácil a um conjunto de documentários que deveriam ser obrigatórios para qualquer militante:
• Sujeito a Termos e Condições de Uso (2013) — sobre como cedemos nossa privacidade clicando “aceito” sem ler;
• A Privacidade Hackeada (2019) — o documentário que escancarou a Cambridge Analytica;
• O Dilema das Redes (2020) — ex-engenheiros do Vale do Silício explicando, de dentro, como as plataformas foram projetadas para viciar;
• A Rede (2010) — ficção baseada na história real da fundação do Facebook, que já antecipava as contradições éticas do modelo;
• Citizenfour (2014) — o documentário de Laura Poitras e Glenn Greenwald sobre Edward Snowden e a vigilância em massa;
• Som na Faixa (The Playlist, 2022) — série que narra o nascimento do Spotify e como a indústria cultural foi reorganizada pela lógica das plataformas de streaming, especialmente na música.
Como Laura Sabino sintetizou: “A internet que a gente usa todos os dias não é um território neutro. Ela é dominada por grandes empresas, com donos, acionistas e, claro, interesses financeiros, estratégicos e políticos”. Elon Musk, notícia nesta semana pelo IPO da SpaceX que o tornou o primeiro trilionário do mundo, comprou o Twitter, mudou o nome para “X”, é operador aberto da agenda da extrema-direita global e o exemplo mais escancarado dessa fusão entre poder político e poder digital. Ou uma “monarquia digital global” como sugere outro drama documental chamado “2073”, de Asif Kapadia, disponível na HBO no Brasil.
Noam Chomsky já havia mapeado, décadas antes das redes sociais, as dez estratégias de manipulação midiática que o poder usa para controlar populações: da distração ao apelo emocional, do gradualismo à criação do problema-reação-solução. O que as bigtechs fizeram foi automatizar e escalar essas estratégias a um nível que Chomsky não poderia ter imaginado – transformando cada usuário num alvo personalizado de manipulação em tempo real.
O pensador Evgeny Morozov desmonta com precisão o mito fundador da internet como instrumento de libertação: “Todos os usos dessas tecnologias por atores que estavam longe de ser democráticos eram, de certa forma, invisíveis para nós, porque presumíamos que esses eram instrumentos do bem, instrumentos de disseminação da democracia, da liberdade e da libertação”. Não são mais invisíveis. Tal visibilidade nos obriga a agir de outra maneira.
A pergunta que se impõe não é mais “devemos usar as redes?”. E batalha já foi perdida pela omissão que não é recente. A pergunta é: como usá-las sem sermos usados por elas?
III. O QUE AS REDES FAZEM COM O MILITANTE
Antes de responder à pergunta estratégica, é preciso ser honesto sobre o custo humano do modelo atual de militância digital. A neurociência já documentou o que qualquer militante veterano sente na pele: passar horas rolando o feed ou pulando de grupo em grupo, sem interação real, drena dopamina e produz o que os pesquisadores chamam de “esgotamento por sobrecarga cognitiva” ou “estafa por sobrecarga de informação”. A pesquisadora Nara Helena descreve com precisão: “Esgotamento mental, ansiedade, depressão, muito cansaço (…), percepção de mudanças de humor”. E vai além: “Isso é caracterizado por um excesso de informação, uma sobrecarga cognitiva… (o que leva à) dificuldade de concentração”.
O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis demonstrou que o cérebro humano tem limites físicos para processar estímulos simultâneos. Cento e cinquenta mensagens acumuladas em cada grupo (para sermos bem cautelosos, porque é muito mais) não informam, sobrecarregam. Qualquer pessoa sobrecarregada cognitivamente não mobiliza ninguém e o exemplo clássico a gente conhece desde sempre, quando se milita na rua: cansaço, fome, irritação pedem pausa, alimentação, relaxamento – do contrário, o/a militante não conversa e, se conversar, não convence.
O filósofo Douglas Barros, ao analisar o identitarismo nas redes, identificou um fenômeno que ele chama de “ego gregário”. Para Barros, “o indivíduo se sente parte de um grupo, mas esse grupo é definido por algoritmos que otimizam engajamento e consumo, não justiça social”. É uma ilusão de pertencimento coletivo que, na prática, fragmenta e individualiza – exatamente o oposto do que a militância precisa construir.
Há ainda uma camada mais profunda nesse adoecimento, que o psicanalista Daniel Omar Perez identifica com precisão: o esgotamento do militante digital não é acidente nem incapacidade individual. É da estrutura do próprio neoliberalismo que individualiza responsabilidades e suga a energia coletiva. O sistema quer você exausto diante da tela – porque exausto, você não organiza, não debate, não age no território.
Estudos sobre o tráfego global da internet indicam que a maior parte do fluxo de dados é movida por entretenimento — streaming, redes sociais, conteúdo adulto. Os algoritmos aprendem seus interesses e entregam exclusivamente o que você já quer ver, criando câmaras de eco que confirmam crenças, radicalizam posições e, paradoxalmente, imobilizam. Marcia Tiburi, ao analisar a subjetividade autoritária nas redes, aponta que o WhatsApp e outras plataformas dominadas pela extrema-direita não apenas desinformam — estruturam psiquicamente uma disposição para a obediência ao líder e para a agressividade contra o diferente.
A pergunta incômoda que cada militante precisa se fazer é esta: quanto do meu tempo de tela é militância e quanto é entretenimento que eu chamo de militância?
IV. MILITANTE RAIZ E ATIVISTA DIGITAL: UMA DISTINÇÃO NECESSÁRIA
Existe uma diferença inegável — e historicamente enraizada — entre o militante territorial e o ativista estritamente digital. Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder”, mostrou que o Brasil foi construído sobre uma estrutura patrimonialista que sempre excluiu o povo da política real. Florestan Fernandes demonstrou que nossa burguesia nunca completou sua revolução democrática – o que significa que a democracia no Brasil sempre dependeu, para avançar, da organização popular de base territorial, presencial. O militante que debate na esquina, que ouve o vizinho, que conhece o nome das crianças da rua — esse militante tem raízes numa tradição de luta que antecede qualquer plataforma digital e que nenhum algoritmo consegue substituir.
Darcy Ribeiro nos propôs que o povo brasileiro é um “povo-nação” que ainda não se reconhece plenamente como sujeito político. Jessé Souza aprofundou essa análise ao mostrar como os “batalhadores brasileiros” – a classe trabalhadora precarizada – foram sistematicamente privados do capital cultural que permite decodificar a linguagem política formal. Para esse público, a militância de rua, a conversa direta, o vínculo humano real têm um poder de persuasão que nenhum textão de WhatsApp alcança.
Do ponto de vista tecnológico, vale lembrar o que os próprios criadores das plataformas já admitiram. Sean Parker, primeiro presidente do Facebook, afirmou publicamente (quase numa “confissão”) que o design das redes foi deliberadamente construído para explorar “uma vulnerabilidade na psicologia humana”: o desejo de validação social.
Tristan Harris, ex-designer do Google e protagonista de “O Dilema das Redes”, foi ainda mais direto: “Nunca antes na história da humanidade, cinquenta designers tomaram decisões que afetariam dois bilhões de pessoas”. Isso não é tecnologia neutra, é engenharia comportamental em escala planetária. Mas não por isso, devemos abandonar as redes. Precisamos entender que a rede deve ser uma ponte para a realidade, não um fim em si mesma. Um grupo de WhatsApp que não gera encontro, ação ou transformação concreta no território é, no melhor dos casos, um mural de avisos. No pior, uma câmara de eco que consome energia sem produzir política.
V. A EXPROPRIAÇÃO SIMBÓLICA: USAR A ENGRENAGEM CONTRA SI MESMA
Chegamos à questão central deste ensaio.
Se as plataformas foram construídas para nos viciar, fragmentar e vender-nos (nossos dados, nosso tempo) – podemos usá-las contra essa lógica? A resposta é sim. E com boas condições de ter sucesso. É a História que nos dá a chave para entender como aplicar essa ação. A indústria da desinformação não nasceu com o Facebook. Ela tem mandatários que mudam de nome a cada era. Podemos começar, não muito longe do nosso tempo histórico, com as bibliotecas das Igrejas medievais — guardiãs do conhecimento escrito num tempo em que a maioria da população era analfabeta, o saber era poder e a heresia era crime. Depois, os impérios coloniais controlaram a circulação de ideias com a mesma eficiência com que controlavam rotas comerciais – queimando livros, silenciando pensadores, exilando dissidentes. Hoje, são as bigtechs que ocupam esse lugar: não com fogueiras, mas com algoritmos; não com censura explícita, mas com invisibilização seletiva. E, contudo, as ideias divergentes sempre sobreviveram, sempre encontraram frestas, ecoaram nas camadas mais esclarecidas e letradas da classe trabalhadora, passando de geração em geração por dentro do próprio sistema que tentava silenciá-las.
Henry David Thoreau, em “A Desobediência Civil” (1849), formulou o princípio que Gandhi transformaria em método e que Malcolm X, Angela Davis e Nelson Mandela, cada um à sua maneira, radicalizaram e reinventaram: a resistência mais eficaz não é a que foge do sistema, mas a que o ocupa por dentro, subvertendo sua lógica com a força dos que ele tenta excluir. Gandhi usou o sal – produto controlado pelo Império Britânico – para organizar a maior marcha de desobediência civil da história. Malcolm X usou a retórica do poder branco para construir a consciência, a resistência e o contra-ataque da comunidade negra organizada. Angela Davis usou as próprias prisões dos USA como palanque político. Mandela usou o tribunal que o condenou como tribuna para o mundo.
Sendo direto: vamos usar as plataformas das bigtechs para organizar a resistência às bigtechs. E vamos fazê-lo com uma vantagem que nenhum desses líderes históricos teve: números. O Brasil tem mais de 150 milhões de usuários ativos de internet, com uma das maiores taxas de engajamento em redes sociais do planeta. Somos um dos povos mais conectados da Terra e, no Ocidente, depois dos USA, o maior mercado de usuários. Aliás, já disseram, apenas duas indústrias chamam seus clientes de usuários: a das bigtechs e a do narcotráfico.
A World Wide Web foi criada por Tim Berners-Lee como infraestrutura aberta, pública e colaborativa — e ele não se vendeu. Os princípios que a fundaram ainda existem sob a camada comercial das bigtechs. É nessa tensão que opera a possibilidade de uma expropriação simbólica e dentro da lei das mesmas ferramentas que o adversário usa. O algoritmo não é neutro, mas é bem previsível, ao menos pra quem trabalha desde sempre com tecnologia. Ele premia interação genuína – comentários, respostas, debates reais – muito mais do que o compartilhamento passivo de links.
Como Douglas Barros nos lembra, os algoritmos foram projetados para otimizar engajamento e consumo – mas engajamento real, político, humano, em escala, subverte essa lógica porque gera o que os bots nunca conseguem gerar: comunidade humana. Um militante que comenta, contextualiza e dialoga ativa o algoritmo de forma mais eficiente do que mil bots espalhados por datacenters ao redor do mundo. Não apenas os robôs (bots) que fazem nosso cérebro processar ruído em vez de informação relevante, também nós estamos nos robotizando ao simplesmente encaminhar links, posts e até outras ideias, que nem lemos até o final, para uma dezena de grupos. Pessoas saudáveis, de verdade, ativas na vida privada, profissional e militante geram movimento, não ruído. Mesmo que tenham limitações de locomoção, como dia desse um querido e antigo companheiro de luta me lembrou: com problemas para andar, não se considerava mais um “militante raiz”. É isso que as redes fazem conosco sem que percebamos: nos criticamos por achar que, em certos momentos da vida, por alguma discapacidade física, nos tornamos incapazes de pensar e agir criticamente como antes, no território.
Concordo com o jornalista Rodrigo Vianna em sua análise dos desafios do terceiro governo Lula. Sendo direto: a regulação das plataformas digitais tem um papel central no debate político e muitos países já desenvolvem legislação para regular as plataformas em vários aspectos. A regulação democrática das bigtechs não é censura – trata-se de defesa da soberania nacional brasileira. É o que pode impedir, no Brasil, que repita indefinidamente a história do Brexit, na eleição de Trump em 2016 e das eleições de Bolsonaro e Milei – para ficar apenas nos âmbitos de estados nacionais. Se fôssemos discutir outras esferas de poder, nos daríamos conta do abismo que estamos encarando.
Mas a regulação só virá com muito luta e depois da vitória nas eleições de 2026. Antes dela, precisamos da organização, da frente ampla alinhada no foco comum: reeleger Lula, um Senado democrático e popular, governadores aliados e deputadas e deputados, em âmbito estadual e federal, que nos deem condições de governabilidade.
VI. UM PROTOCOLO DE MILITÂNCIA SAUDÁVEL E EFICAZ
Da experiência acumulada em 30 anos de militância e 18 campanhas eleitorais, e ancorado nas referências que este ensaio compila, proponho um protocolo simples:
1. Selecione onde estar | Se um grupo não tem foco, não tem diálogo e não gera ação, saia sem culpa. Energia militante é recurso escasso. Não a desperdice.
2. Quando postar, contextualize | Nunca jogue um link sem dizer por que ele é relevante para você. Respeitar o tempo de tela do companheiro e da companheira de luta significa também respeitar o próprio trabalho militante em rede e o nosso próprio tempo despendido diante de telas.
3. Interaja de verdade | Reaja, comente, responda. Isso não é apenas boa prática comunicacional – é o que ativa os algoritmos a favor da causa e o que transforma grupos em comunidades.
4. Procure entender e separar militância de entretenimento | As redes foram feitas para entreter. Use-as para isso também, sem culpa. O erro é confundir scroll infinito com ação política.
5. Mantenha o foco tático | Nesta conjuntura, o foco é um só, e nunca é demais repetir: REELEGER LULA E ELEGER UM SENADO DA REPÚBLICA QUE O APOIE — além de governadores aliados e deputadas e deputados da Frente Ampla. Divergências têm espaço – nas instâncias partidárias nesse exato momento há debates viscerais; durante a campanha, dentro dos partidos, teremos divergências que parecerão intransponíveis. No entanto, escrevo para o militante que não é dirigente, que não frequenta sede de partido, que nem sempre está disponível para atos públicos e, por isso, a ação em Comitês Populares de Luta e outras organizações a partir das bases territoriais são fundamentais para reunir os divergentes que, no entanto, estarão com Lula nessa batalha. O debate mais acirrado entre campos, fundamental em qualquer nação que queira democrática, entre nós precisa estar agendado para recomeçar em novembro de 2026, depois da vitória.
VII. CODA: A QUESTÃO QUE FICA
Estamos em desvantagem tecnológica. As bigtechs têm bilhões, nossos dados e mais poder de alcance de público do que qualquer campanha progressista do mundo. Isso é fato. Mas temos algo que elas não têm e não podem comprar: milhões de pessoas reais, com histórias reais, dispostas a agir por um projeto coletivo. Poucos países no mundo têm essa escala de usuários conectados com essa densidade de vínculos comunitários. O Brasil é, nesse sentido, uma “anomalia positiva” no mapa global da política digital.
A organização subversiva pela própria engrenagem das redes — usando interação genuína onde eles usam robôs (bots); usando narrativa de engajamento territorial onde eles usam ruído escapista e diversionista; usando comunidade onde eles usam fragmentação. É um caminho. Depois de eleição, a regulação democrática das plataformas é a primeira e mais urgente providência. Servirá para impedirmos que novas interferências dessa nova “monarquia tecnológica global” não se repitam.
Evgeny Morozov nos deixa uma advertência que é também uma convocação: há forças que “desprezam a democracia, desprezam a ambiguidade” e que constroem agendas que “não permitem ação coletiva, não permitem agendas verdadeiramente transformadoras”. Reconhecê-las – dentro e fora das plataformas – é o primeiro ato político consciente.
Thoreau escreveu, em 1849, que “sob um governo que encarcera injustamente alguém, o lugar justo para um homem justo é também a prisão”, em “A Desobediência Civil”. Hoje, sob plataformas que manipulam eleições e adoecem democracias, o lugar do militante consciente não é fora das redes – é dentro delas, ocupando cada pixel de espaço com verdade, organização e humanidade.
A questão que fica – e que cada militante precisa responder honestamente para si mesmo – é esta:
Eu estou nas redes sociais para transformar ou para ser transformado por elas?
A resposta a essa pergunta é o começo de tudo.
*Henri Figueiredo é jornalista profissional (Mtb 12.085). Atua na área de Crítica da Mídia, Comunicação Política Estratégica e Mídias Digitais. É militante filiado ao PT e produtor cultural e roteirista. Gaúcho radicado no Rio de Janeiro há 33 anos, trabalhou de maneira técnica e profissional em 18 campanhas eleitorais entre 1996 e 2020. Sem contar as inúmeras campanhas que se envolveu, como militante, desde os 16 anos, em 1989.
Instagram: @henriphoto
EPÍLOGO: MÉTODO, FERRAMENTA E CONVITE
NOTA DO AUTOR
COMO ESTE ENSAIO FOI PRODUZIDO — E COMO VOCÊ PODE FAZER O MESMO
Este texto nasceu de um vídeo.
Em 12 de junho de 2026, escrevi um breve roteiro e, com ele, gravei um vídeo de dez minutos para distribuição em grupos de WhatsApp de militantes do campo democrático no Rio de Janeiro – especificamente nos Comitês Populares de Lula criados na campanha de 2022, em Santa Teresa e arredores. O roteiro era empírico: construído sobre 37 anos de militância política e 18 campanhas eleitorais, sem me preocupar em buscar as fontes nem o aparato para um artigo acadêmico formal. Era experiência bruta que, pela minha técnica jornalística, visava construir bons argumentos.
Depois de publicado o vídeo, decidi transformá-lo num ensaio. Para isso, usei o Oráculo.
O Oráculo é o sistema de inteligência artificial do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) — plataforma brasileira de educação que reúne cursos, aulas e palestras de alguns dos maiores pensadores do Brasil e do mundo, nas áreas de política, filosofia, economia, comunicação, história, ciências sociais, saúde mental, tecnologia e muito mais.
O que o Oráculo faz é diferente de qualquer outro sistema de IA que já usei: ele não busca na internet aberta, com seus riscos de desinformação e viés algorítmico. Ele busca dentro de um acervo de conhecimento com curadoria – as transcrições reais das aulas do ICL. Quando pergunto sobre Marilena Chauí, ele me devolve o que Chauí disse, de fato, numa aula do ICL, com o timestamp exato e o link para que eu possa verificar. Quando pergunto sobre Evgeny Morozov, ele me traz a citação precisa, não uma paráfrase inventada.
Isso muda tudo para um jornalista.
O processo de produção deste ensaio foi assim:
Apresentei meu roteiro original ao Oráculo. Pedi referências acadêmicas que sustentassem — ou contestassem — minhas teses empíricas. O sistema buscou nas transcrições de aulas do ICL e trouxe citações verificadas de Marilena Chauí, Marcia Tiburi, Jessé Souza, Rodrigo Vianna, Daniel Omar Perez, Evgeny Morozov, Laura Sabino, Nara Helena e outros. Propus a estrutura do ensaio, o título, o tom, o tamanho e o fechamento. O Oráculo redigiu. Eu revisei, questionei, pedi ajustes e corrigi imprecisões — inclusive quando o sistema admitiu, honestamente, não ter confirmação para um dado que eu havia sugerido. Voltamos ao texto. Ajustamos. Refinamos.
Foram várias rodadas de diálogo — não de ditado. Eu não pedi ao sistema que pensasse por mim. Pedi que me ajudasse a pensar melhor.
O resultado é este ensaio: uma ideia original minha, construída com minha experiência, estruturada com minha visão política — e enriquecida por um sistema de IA que funcionou como o melhor assistente de pesquisa que já tive em 30 anos de jornalismo e que, na finalização, me tomou mais duas horas de edição.
Não terceirizei meu pensamento. Usei uma ferramenta para ampliá-lo.
Acredito que essa transparência não enfraquece o texto – ela o fortalece. Porque o leitor merece saber não apenas o que pensamos, mas como chegamos a pensar.
Jornalismo é método. E método se mostra.
E AGORA, UM CONVITE DIRETO:
Se você chegou até aqui — militante, estudante, professor, jornalista, curioso — e quer ter acesso à mesma ferramenta que usei para produzir este ensaio, e a todo o acervo de conhecimento que ela organiza, o caminho é simples:
1. Acesse icl.com.br
O Instituto Conhecimento Liberta é uma plataforma de educação brasileira, acessível, com centenas de cursos em todas as áreas do conhecimento.
2. Escolha seu plano e torne-se membro
Como membro, você tem acesso a aulas, cursos completos e ao Oráculo — o assistente de IA que navega pelo acervo e responde suas perguntas com base em conhecimento verificado.
3. Abra o Oráculo e comece a perguntar
Não precisa saber tudo antes de começar. Traga sua dúvida, sua ideia, seu rascunho — como eu trouxe o meu roteiro. O sistema vai te ajudar a construir, pesquisar, aprofundar e refinar.
4. Use o conhecimento para agir
O ICL não foi criado para formar espectadores passivos. Foi criado para formar pessoas que pensam, questionam e transformam. Exatamente o perfil de militante que este ensaio defende.
Há uma ironia bonita neste processo que não quero deixar passar em silêncio:
Escrevi um ensaio sobre como usar as ferramentas do adversário de forma contra-hegemônica — e usei exatamente esse método para produzi-lo. Peguei uma tecnologia de inteligência artificial, geralmente associada ao universo corporativo e ao Vale do Silício, e a usei a serviço de um projeto político emancipatório, ancorado no pensamento crítico brasileiro.
Não é contradição. É coerência.
É, em resumo, exatamente o que este ensaio propõe para a militância nas redes:
Ocupe o território. Use a ferramenta. Subverta a lógica. Liberte o conhecimento.
— Henri Figueiredo
Rio de Janeiro, 13 de junho de 2026
Instagram: @henriphoto
SOBRE O GRANDE FILME “CASA DE DINAMITE” DA NETFLIX

O que me leva, com urgência, a falar e recomendar “Casa de Dinamite” foi o choque que tive agora ao ver a “cotação” da obra na internet: 1.4 de 5 pontos possíveis. Eu fico chocado, entristecido, estarrecido até com o embrutecimento, às raias da lobotomia, da audiência no Brasil. Parece que, nos nossos tempos atuais, se um filme não entregar um clímax ao gosto óbvio do espectador/telespectador, ele não é bom. Lendo algumas críticas, percebo o mesmo pendor para desqualificar a obra em função de seu último ato. E esta é uma obra magnífica, com um roteiro e atuações que seriam ovacionadas de pé em qualquer sala de teatro – sim, porque é bastante teatral o desenrolar dos acontecimentos e os fantásticos diálogos. Vejam e opinem. Eu fiquei mesmerizado a partir dos primeiros 15 minutos até o fim dos 112 minutos de ação. E o povo odiou. Que triste.
Lembro nessa hora daquele pop-rock antigo “Deu na TV” do grande cantautor gaúcho Nei Lisboa em que ele ironiza: “O presidente dos Estados Unidos | Salvou a Terra do choque de um cometa | E eliminou os terroristas malvados | Que ameaçavam dominar o planeta | O presidente não poupou esforços | Arremessando aviões e foguetes | E embora errando uns tantos alvos | Mereceu dos seus os seus aplausos”
Pois é… sem dar spoiler, talvez o que pessoal quisesse ver fosse exatamente o que Nei Lisboa ironizou nessa música do álbum “Cena Beatnik”, de 2001. Só que o filme é uma pancada no estômago.
ATUALIZAÇÃO: Incluo aqui a cópia do comentário do baita jornalista Mário Marcos de Souza: “Kathryn Bigelow ganhou o Oscar por Guerra ao Terror, causou impacto com A Hora Mais Escura, o filme sobre a história da caçada a Bin Laden, e agora surge com Casa de Dinamite (com um senhor elenco), que fala de um míssil lançado contra os Estados Unidos. I A diretora surpreende de novo. Ela mostra a história de três pontos de vista diferentes, cada um baseado em um dos personagens. I O que mexe com tudo é que ninguém sabe de onde o míssil partiu, nem quem foi responsável pelo lançamento, apesar dos suspeitos de sempre, mas também mostra a confusão em que os diversos serviços de controle dos Estados Unidos ficam envolvidos. Um fiasco. O final é surpreendente.” LEIA AQUI.
Copio abaixo mais informações:
A House of Dynamite (bra: Casa de Dinamite) é um filme de suspense político americano de 2025, dirigido por Kathryn Bigelow e escrito por Noah Oppenheim. O filme conta com um elenco que inclui Idris Elba, Rebecca Ferguson, Gabriel Basso, Jared Harris, Tracy Letts, Anthony Ramos, Moses Ingram, Jonah Hauer-King, Greta Lee e Jason Clarke.
A House of Dynamite fez sua estreia mundial na octogésima segunda edição do Festival de Veneza em 2 de setembro de 2025, onde foi indicado ao Leão de Ouro. O filme teve um lançamento limitado em cinemas selecionados do Reino Unido em 3 de outubro de 2025; no Brasil em 9 de outubro e nos Estados Unidos em 10 de outubro, antes de ser lançado globalmente na Netflix em 24 de outubro.
Sinopse [com apontamentos meus]
Um míssil nuclear não identificado é disparado contra os Estados Unidos, dando início a uma corrida de autodefesa/retaliação de vários órgãos governamentais dos USA – muitos deles alvos de desmonte por Donald Trump, como a FEMA, por exemplo. O governo dos USA tem menos de 20 minutos para encontrar o responsável e decidir o que fazer.
Elenco
Idris Elba como Presidente dos Estados Unidos
Rebecca Ferguson como Capitã Olivia Walker
Gabriel Basso como Vice-assessor de Segurança Nacional Jake Baerington
Jared Harris como Secretário de Defesa Reid Baker
Tracy Letts como General Anthony Brody
Anthony Ramos como Major Daniel Gonzalez
Moses Ingram como Cathy Rogers
Jonah Hauer-King como Tenente-Comandante Robert Reeves
Greta Lee como Ana Park
Jason Clarke como Almirante Mark Miller
Willa Fitzgerald como Abby Jansing
Renée Elise Goldsberry como Primeira-Dama dos Estados Unidos
Kyle Allen como Capitão Jon Zimmer
Kaitlyn Dever como Caroline Baker
Malachi Beasley como SCPO William Davis
Brian Tee como SAIC Ken Cho
Brittany O’Grady como Lily Baerington
Gbenga Akinnagbe como Major-General Steven Kyle
Francesca Carpanini como Sargenta Ali Jones
Abubakr Ali como Tenente Dan Buck
Angel Reese como ela mesma
LEMBRE-SE, LEMBRE-SE DO 5 DE NOVEMBRO!

Por Henri Figueiredo*
Certa mídia televisiva brasileira achou “meia boca” o discurso de Kamala Harris, mas não conseguiu contextualizar nem o roteiro da última noite da Convenção Nacional do Partido Democrata, em Chicago, neste 22 de agosto de 2024.
Ainda me recuperando de uma virose qualquer (há tantas!), tive ânimo de assistir por horas na noite e início da madrugada desta quinta (22) para sexta-feira (23) a transmissão do encerramento da Convenção Nacional do Partido Democrata, direto de Chicago, pela CNN Internacional – em que a vice-presidente dos Estados Unidos da América, Kamala Harris, encerrou com um discurso de cerca de 40 minutos. De maneira protocolar, aceitou sua indicação para a Presidência – cuja eleição será em 5 de novembro.
“Remember, remember the 5th of November!” – os fãs dos grandes Alan Moore e David Lloyd vão lembrar de “V for Vendetta” publicada pela DC Comics, em 1988, sob a sua marca Vertigo. Os cinéfilos mais jovens vão lembrar de “V de Vingança” de 2005, dirigido por James McTeigue e produzido por Joel Silver e pelas irmãs Wachowski – criadoras de obras-primas como o longa Matrix (1999) e da série Sense8 (2015). Aliás, permitam-me esse ‘nariz de cera’ (deem um Google, crianças), não tenho dúvidas de que a máscara de Salvador Dalí na sensacional “La Casa de Papel”, recuperada na Espanha e feita um sucesso global pela Netflix, bebeu muito da máscara de Guy Fawkes (1605), uma figura histórica lembrada até hoje na Inglaterra, onde o 5 de novembro é a celebração anual da “Noite das Fogueiras”.
Quando era um jovem repórter, fui doutrinado a detestar narizes de cera. A medida que fui envelhecendo, passei a achá-los necessários para situar quem lê – já que, apesar de me gabar de gostar de editar, cada vez mais sinto falta da contextualização no jornalismo.
Enfim, volto ao lead, ao mais importante, ao ponto que precisa ser discutido. E não é, definitivamente, o discurso em si que a atual VP dos USA e agora oficialmente candidata à Presidência fez: o importante foi o ROTEIRO da última noite.
Comecei a assistir à transmissão ao vivo da DNC, em Chicago, pela CNN Internacional, ancorada pelo Anderson Cooper, sem tradução, sem legenda, enfim, me desafiando na audição do inglês dos estadunidenses naquele ritmo frenético e com sua prosódia absolutamente diversa entre cada comentarista ou orador. Foi um bom exercício. Mas o melhor foi acompanhar a maior parte do roteiro e linha discursiva dos que usaram o microfone.
Daí, eu pergunto: onde estavam, nessa hora, os comentaristas da CNN Brasil e da GloboNews, especialmente – que foram os canais nacionais que eu acompanhei. Pareceu-me, ao fim do discurso de Kamala, que estavam trocando ideias aleatórias no cafezinho – perdoem-me a leviandade, mas depois de tentar ouvir os comentários pós-encerramento, só posso reagir como leviano às asneiras que ouvi, como se fossem análises jornalísticas, focadas apenas no discurso da candidata democrata. Foi como se, tanto na CNN Brasil, quanto na GloboNews, não houvera horas de roteiro bem escrito, de estratégia de comunicação política elaborada (bem ou mal, mas elaborada), numa sequência de tirar o fôlego de quem assistia. Tudo o que importou para os, sejamos justos, bem remunerados “analistas” de TV por assinatura (falo especialmente destes dois canais pagos) foi o último discurso.
Eu não vou aqui perder meu tempo elencando tudo de incrível que eu ouvi, em inglês – e, portanto, perdendo ao menos uns 30% de entendimento preciso, confesso – e que não foi sequer mencionado pelos comentaristas ao fim do discurso de Kamala Harris.
Desde jovem eu construí minha trajetória no jornalismo profissional e, também, na militância política. Embora seja um ativista político desde os 16 anos de idade, quando votei pela primeira vez para presidente – junto com meus pais, aliás –, em 1989, só me filiei ao meu partido desde sempre quando decidi assumir e ajudar a construir e a colaborar, publicamente, para narrativa do meu campo democrático. Até então, passei mais de duas décadas de vida cumprindo o Código de Ética do meu ofício e, de fato, verificando as várias verdades, investigando e publicando as várias verdades que se aparecem para quem é repórter de fato. Vivi e morro repórter e militante. Este breve texto, por exemplo, não passa de uma reles crítica da mídia – um dos meus esportes favoritos desde criança.
Na noite de 22 de agosto de 2024 até o início da madrugada de 23, no Brasil, eu acompanhei várias verdades desfilarem pelo palco do United Center, de onde eu costumava assistir um búfalo soldier, chamado Jordan, vestindo uma camisa com o número 23, destruir seus adversários com talento, força e lealdade. Foi algo assim que eu assisti hoje e que os analistas perderam ou não tiveram liberdade, tempo, coragem ou inteligência (foi mal, mas é isso aí mesmo) pra falar.
Vou elencar de memória o que lembro ter ouvido de alguns cidadãos e cidadãs dos USA falarem no palco. Bora lá, não necessariamente nesta ordem:
1) Professora que perdeu mais de duas dezenas de alunos, alunas e colegas em ataque com armas de assalto na sua escola – coisa que Trump, mesmo depois do tiro que rasgou como gilete sua orelha, continua defendendo como de livre comércio. Mãe de aluno que foi morto por atirador com arma de assalto em escola. Estudante sobrevivente de ataque por arma de assalto em escola.
2) Xerife de condado de interior relatando que as comunidades foram contaminadas pelo ódio e que o papel da polícia, numa democracia, é proteger, servir e – principalmente – fazer cumprir a Constituição, ao contrário do que fez o bilionário que quer voltar à Presidência, dividindo o país e incitando uma tentativa de golpe de Estado em 21 que deixou mortos e feridos. E, aponto eu, que serviu de modelo para a tentativa terrorista de golpe no Brasil, em 8 de janeiro de 23.
3) Ex-chefe da CIA (e de outros altos postos de comando de inteligência) afirmando que o adversário mente, não é confiável e não tem moral nem virtude para governar.
4) Governador e general reformado, afirmando que o adversário não respeita as forças armadas do Império, não tem preocupação nenhuma com quem serve ao país deles com armas nas mãos em guerras globais.
5) Deputado republicano, veterano da Força Aérea, lamentando o sequestro que seu partido teve com a chegada desse líder populista (evitou dizer “fascista”, mas aí seria um tapa na cara dos seus próprios correligionários); denunciando as mentiras do candidato do seu próprio partido e exortando os verdadeiros republicanos a votarem em Kamala Harris.
6) Irmã, afilhada, sobrinha e enteada falando sobre quem é a mulher, o ser humano, a pessoa Kamala Harris.
Bem, teve mais, é claro. Isso tudo não para “defender” Kamala que, aliás, foi muito mal ao dar a ênfase que deu ao ataque terrorista sofrido pelo povo de Israel, pelo Hamas, que resultou em condenáveis 1,2 mil assassinatos de israelenses e cuja resposta absolutamente desproporcional e criminosa, com armas fornecidas, inclusive, pelos USA, causou o genocídio de mais de 40 mil palestinos e palestinas – a imensa maioria de mulheres e crianças residentes na Faixa de Gaza.
Eu não vou repetir aqui, por óbvio, o que todos há horas se ativeram – o discurso, em si, de Kamala. Só fiz questão de fazer o registro acima porque, para mim, foi o mais que mais me enojou, visceralmente. No entanto, dizer que a fala da mulher, na noite em que ela aceita a tarefa de enfrentar o neofascismo em solo americano, foi… “razoável”, “mediana”, “não empolgante”, “focada na pauta identitária” não é apenas reducionista e simplificador, é burro. E incompetente – eu não sou pago para acompanhar a íntegra do último dia da convenção do Partido Democrata dos USA. Francamente, evitando ser pernóstico, tive nesta noite mais um exemplo escancarado de que o nosso jornalismo está, em sua maioria, tocado por gente ou muito preguiçosa ou muito subalterna à ordem da diretoria.
Entendo os limites da programação que impediram que se transmitisse toda a programação da noite. Isso faz e sempre fez parte da grade. O que eu não engulo, não mesmo, é o recorte fácil, apressado, cansado e, portanto, de baixo nível – feito por gente que tem qualidade para fazer melhor. É uma pena. Aliás, de penas a Kamala entende bem.
*Jornalista profissional desde 1995. Ativista político desde 1988.
A ideia platônica da música boa

*Por Henri Figueiredo
A música brasileira já foi considerada a “melhor do mundo”? Sim, se considerarmos principalmente o público brasileiro, nossos artistas e alguns parceiros musicais estrangeiros de nossos compositores e intérpretes. Também, é claro, por um público seleto ao redor do planeta. Da mesma maneira, é considerada “a melhor do mundo” a música feita nos Estados Unidos da América, com sua estupenda audiência e imposição global do império fonográfico; “a melhor do mundo” também é a música feita na Índia, fundamental até hoje em qualquer filme rodado no país que mais produz cinema todo ano; ou a música ancestral de todos os recantos da África; “a melhor do mundo” é a música ritual dos povos originários das Américas, da Oceania e da Ásia insular; para muitos, a melhor é a música rítmica do islamismo sufi que faz os dançarinos girarem até cair em êxtase espiritual. Nietzsche disse algo como: “Só acredito num Deus que saiba dançar”, que, aliás, deu nome a um excelente livro do escritor e terapeuta gaúcho Sérgio Veleda – amante e estudioso da música e de tantas outras artes.
Muitos cientistas defendem que todos nascemos com ouvido absoluto – a capacidade de perceber e identificar cada nota, vinda de uma lira ou do ronco de uma moto. Algo que se perde, de acordo com os que defendem a tese, se não treinarmos tal capacidade desde a primeira infância. Eu tive a sorte de ter, em escola pública estadual no início dos anos 80, no Rio Grande do Sul, aula de música curricular: escolhi o violão. Antes, tinha tentado, em casa, a flauta doce e o clarinete. Até hoje volto ao violão com amor, respeito e dificuldade, lendo cifras e não notas musicais. Me encontrei melhor nos instrumentos percussivos e uma batucada de roda, uma boa bateria de bloco ou de escola de samba me enleva e me conduz a lugares indizíveis de prazer e de dissolução do ego: trato como uma experiência sensorial e emocional valorosa nessa vida.
Por ter voltado ao violão, baixei um aplicativo de cifras no celular. No segundo dia do ano, este app me notificou com uma lista das 10 cifras mais buscadas em 2023. Seis eram de música gospel, três de sertanejo (incluindo aí “Evidências” que, apesar de ser o maior hit de Chitãozinho e Xororó, é uma canção romântica composta por José Augusto) e, em sétimo lugar – entre as dez – o único ponto fora da curva: “Tempo Perdido”, da Legião Urbana – nome de banda que também batizaria lindamente qualquer grupo de Resistência às imposições do chamado Deus Mercado.
Aqui chegamos ao ponto crucial deste meu breve comentário que, friso, não vem com a pretensão nem com a metodologia necessária de ser uma tese. Menos, bem menos. No entanto, verifico há tempos o que muitos antes de mim também já verificaram: o elitismo cultural que desqualifica o gosto das massas e mede o bom, o belo e o justo pelos seus parâmetros de cidadãos e cidadãs ilustrados.
O próprio Carlinhos Lyra percebera, lá nos anos 60, que a Bossa Nova, cria do samba, renegava suas raízes no morro, nas favelas e nos guetos da música negra, da Bahia e do Rio, e sob a “influência do jazz” bebia em córregos gelados do Hemisfério Norte. Concordando com Lyra, Paulinho da Viola disse que até aceitava o argumento dos papas da Bossa Nova mas, com toda a sabedoria de quem parece que já nasceu ancião, lembrou que a rapaziada sentia a falta de um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim. Décadas antes, Noel Rosa brincava que o “cinema falado era o grande culpado da transformação”. E eu entendo que ele não se referia apenas às expressões idiomáticas mas também aos ritmos que nos chegavam de terras estrangeiras.
Em outubro de 2021, Caetano Veloso, verdadeira antena da aldeia, chamou o virtuose da percussão Pretinho da Serrinha para uma canção chamada “Sem samba não dá”. Nela diz que tudo está “esquisito, muito errado, mas a gente chega lá”. E derrama, em seguida, toda sua generosidade em relação à plêiade de novos artistas que surgem na onda do streaming, das redes sociais, na criação em laboratório de subgêneros feitos sob medida para arrebatar massas por um ou dois anos e, depois, sumirem. “Tem muito atrito, treta, tem muamba | Mas tem sertanejo, trap, pagodão | Anavitória, doce beijo d’onça | Mar(av)ília Mendonça, afinação” (…) Tem Ferrugem, Glória Groove, Maiara e Maraísa | Yoùn, Yoùn | Tem Djonga com Rogério | MC Cabelinho, tem Baco Exu do Blues (…) Tem Duda Beat, Gabriel do Borel, Hiran e Majur | Tz da Coronel | Tem Simone e Simaria sambando | Tem Leo Santana e a Mendonça | No Pelourinho com a Didá”. Só que sem samba não dá, conclui Caetano.
Em “Anjos Tronchos”, Caetano critica os donos das novas tecnologias vindas do Vale do Silício que incidem de forma muitas vezes perniciosa em vários aspectos da vida, inclusive na música. Contudo, ele finaliza a canção com versos que traduzem também o meu sentimento em relação ao estado das coisas na música contemporânea: “E enquanto nós nos perguntamos do início | Miss Eilish faz tudo do quarto com o irmão”. E que grandes artistas são a jovem Billie Eilish e seu irmão Finneas. Antes, Caetano, demarca: “Anjos já mi ou bi ou trilionários | Comandam só seus mi, bi, trilhões | E nós, quando não somos otários | Ouvimos Shoenberg, Webern, Cage, canções…”.
Fui ver a lista das músicas mais tocadas nos EUA de acordo com a revista Billboard, da Prometheus Global Media – especializada em informações sobre a indústria musical. 1) Brenda Lee, “Rockin’ Around the Christmas Tree” 2) Jack Harlow, “Lovin on Me” 3) Taylor Swift, “Is It Over Now? (Taylor’s Version) [From the Vault]” 4) Taylor Swift, “Cruel Summer” 5) Drake feat. J. Cole, “First Person Shooter” 6) Drake “Smile you out” feat. SZA 7) Doja Cat, “Paint the Town Red” 8) Zach Bryan “I remember everything” 9) Oliver Anthony “Rich men north of Richmond” 10) Jason Aldean “Try that in a small town”. E adivinhem só, para quem não conhece, a maioria é de “sertanejo americano” (ou country songs, perdoem-me os puristas), rap e a Taylor Swift – que depois dos megashows no Brasil no fim ano de 23, acredito que dispensa tanto apresentações quanto vilipêndios.
Não satisfeito (“I can’t get no!”), fui buscar a lista das dez mais tocadas no mundo, também de acordo com a Billboard. A reportagem começa assim: “Balada emo teatral. K-pop brincalhão. Camponeses de protesto irritados. Dueto sentimental sertanejo. Hip-hop e B lento com melaço. Rap pop viral. Músicas de quatro anos atrás, sete anos atrás, 65 anos atrás”. Claro que, neste ponto, falam de “Now and Then” dos Beatles.
Ah, eu tinha esquecido completamente do K-pop. Assim como qualquer brasileiro no mundo é abordado de maneira simpática para falar sobre futebol, quando a gente encontra um sul-coreano no Rio de Janeiro (nem todos falam inglês, mas hoje tem o modo intérprete do Google que resolve qualquer dificuldade de conversação) basta falar “K-pop” ou “K-music” para você imediatamente fazer um amigo feliz em saber que algo de sua cultura corre por terras brasilis – além do taekwondo, da Samsung, da LG e da Hyundai. Detalhe, podem ser adultos, falou em “K-pop” os sérios e desconfiados coreanos abrem um sorrisão e ficam de boas.
Eu vou finalizar essa reflexão com o trecho que postei, e citei acima, sobre as 10 cifras mais buscadas porque eu acredito, de fato, esta é uma lista muito mais, digamos, orgânica e representativa do gosto popular do que as listas das mais ouvidas/vendidas. Quando alguém vai atrás de sua canção preferida para aprender a tocá-la (como é bom tocar um instrumento, para lembrar mais uma vez Caetano) é que o negócio foi além do mero entretenimento e virou sentimento. Aqui, na minha irrelevante opinião lida pelos meus 7 leitores (se tanto), é que mora o perigo. Lá vai:
“HAJA TAMPÃO DE OUVIDO! [ou A PASSOS LARGOS PARA UMA TEOCRACIA VIA HEGEMONIA CULTURAL] Esta lista, neste 2 de janeiro de 24, é a das 10 músicas mais buscadas para se tocar com cifra. Tomando como referência a minha própria experiência, toda vez que busquei cifra foi porque eu AMAVA determinada música. Por outro lado, faz tempo que deixei daquele mimimi do elitismo cultural que desqualifica o gosto popular. Contudo, todavia, porém, é chocante o Top Ten das mais buscadas num dos principais sites de cifras do Brasil – é o retrato de como o neopentecostalismo vai ganhando a guerra da hegemonia cultural. Não, eles não leram Antonio Gramsci (muito menos a Bíblia, que é acessório de suvaco) mas seus mais altos líderes leram e entenderam, muito melhor que maioria de nós. Para mudar uma sociedade ou, em outras palavras, fazer uma revolução é preciso, antes, estabelecer-se como hegemonia cultural. O que salva, ainda, é a Resistência, nesta lista verificada como Legião Urbana: “Tempo perdido”. O Renato Russo foi um baita profeta. Eu posso até ser tolerante com o gosto musical da massa ignara, como diria Gaspari. O que não aturo é gente que detesta Legião e fica comparando com outras bandas gringas que: 1) São piores instrumentistas; 2) Nem de longe têm ou tiveram um letrista/poeta como Russo no grupo. 3) Não alcançam o significado de divisor de águas que muitos artistas/grupos musicais nacionais exerceram na história da nossa grande música brasileira. Daí eu fico tão irritado a ponto de achar que o despencar da qualidade da música produzida no Brasil para as massas não foi apenas a facilitação do acesso e o barateamento do streaming, além da já calcificada exploração d@s músic@s profissionais. Foi também essa viralatice de pagar pau pra banda gringa que nem tem mais público pra lotar teatro no resto do mundo mas lota estádio no Brasil. Além, é claro, do projeto teocrático-fundamentalista-assassino que vai ganhando adeptos dispostos a matar e morrer por divindades, ídolos ou mitos.” [Postado no meu perfil de Fakebook em 2 de janeiro de 2024).
Quase ia esquecendo de como comecei. Platão teorizou muito sobre música. Atribuem a ele frases como “cuidado com o que o ‘governo’ faz você ouvir, música é frequência. O que você ouve determina a frequência em que você vibra”. Não há registro exato disso, mas a ideia faz sentido, como escreveu Paulo Costa e Silva, professor de Estética no Departamento de História e Teoria da Arte da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em artigo na revista Piauí (cujo link está no final deste texto). Diz Paulo, no artigo “Platão e poder da música”.
– Deve-se ter em mente que, para Platão, o mecanismo psicológico da empatia descarta o filtro da razão. Ao se dirigir à parte sensível e irracional da alma, à sensibilidade e à afetividade, a imitação de tipos extremados alimenta no espectador sentimentos ruins, quando, nos termos do filósofo, o melhor seria deixá-los “secar”. (…)
– Mas nem tudo em Platão é censura e proibição. Como a arte deve ter um papel ativo na construção da pólis ideal, certos modelos são altamente recomendáveis. No próprio texto da República, ele aconselha a educação dos corpos pela ginástica e também pela musiké. Por essa palavra os gregos designavam uma combinação de poesia, música e dança. Na Antiguidade, a música possuía uma função catártica, de purificação. Colocava o corpo em equilíbrio, harmonizando-o com a ordem cósmica, preparando-o para a aparição do divino. Possuía também uma função mimética e indutora: se a poesia imitava os homens em ação, a música imitaria os estados de alma, suas emoções e virtudes. A cada modo musical atribuía-se um éthos, um caráter específico que o ouvinte associava de imediato a um significado psíquico, que poderia infundir ânimo e potencializar virtudes do corpo e do espírito. [A íntegra aqui: https://piaui.folha.uol.com.br/platao-e-o-poder-da-musica/ ]
Me despeço com as duas últimas estrofes de “Que tal um samba” de Chico Buarque e Hamilton de Holanda, escolhida a Melhor Canção de 2022 no Prêmio da Música Brasileira, entregue no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Que tal uma beleza pura
No fim da borrasca?
Já depois de criar casca
E perder a ternura
Depois de muita bola fora da meta
De novo com a coluna ereta, que tal?
Juntar os cacos, ir à luta
Manter o rumo e a cadência
Esconjurar a ignorância, que tal?
Desmantelar a força bruta
Então que tal puxar um samba
Puxar um samba legal
Puxar um samba porreta
Depois de tanta mutreta
Depois de tanta cascata
Depois de tanta derrota
Depois de tanta demência
E de uma dor filha da puta, que tal?
Puxar um samba
Que tal um samba?
Um samba
*Repórter, produtor de espetáculos, roteirista e batuqueiro amador.
UMA (IN)CERTA MÍDIA SABOTA O PAÍS

O escandaloso recorte dado pelas vozes do Mercado para criar intrigas no governo Lula
*Por Henri Figueiredo
RIO DE JANEIRO – No café da manhã que promoveu com jornalistas no dia de seu aniversário de 78 anos, no último 27 de outubro, no Palácio do Planalto, em Brasília, Lula falou, ao menos, sobre duas dezenas de assuntos diferentes.
O evento durou 1 hora e 22 minutos. Começou com um pronunciamento de Lula, teve 6 perguntas de jornalistas respondidas – pela ordem de veículos: Valor Econômico, Brasil 247, Agência Reuters, Diário do Centro do Mundo (DCM), Grupo Globo e Folha de S.Paulo. Horas depois, nos sites da mídia comercial vinculada ao mercado financeiro, especialmente G1, Uol, Folha, Estadão e Valor Econômico começou um bombardeio com vistas a indispor Lula com seu ministro da Fazenda Fernando Haddad e a equipe econômica. O Deus Mercado, chamado por Lula de “ganancioso” por pressionar pela meta fiscal com déficit zero para 2024 (mesmo em detrimento de investimentos prioritários para o país), mostrou sua articulação midiática que foi refletida, ao fim do dia, na queda da bolsa e numa leve elevação do dólar. O título do cínico editorial da Folha, no dia seguinte, foi: “LULA SABOTA O PAÍS”, com chamada na capa, inclusive.
Assisti na íntegra e transcrevi vários trechos do evento para demonstrar o tamanho do desserviço que a mídia comercial comete no Brasil. Especialmente aqueles veículos midiáticos em internet, rádio, TV, jornais e revistas diretamente vinculados ao mercado financeiro, às teles, à indústria automotiva, à indústria farmacêutica e ao agronegócio.
Em seu pronunciamento, Lula tratou de geopolítica, de energia verde como um ativo importante para o desenvolvimento do país e para colocar o Brasil no centro dos investimentos mundiais nesse campo; fez um apanhado da série de programas sociais que foram retomados em 10 meses; discorreu sobre o volume de investimentos em apenas dez meses (em especial no Transporte) que foi maior do que em 4 anos do governo anterior; falou da retomada de investimentos em escolas, universidades, creches; tratou da questão da relação com o Congresso e da necessidade de se fazer concessões para garantir a governabilidade. O presidente Lula foi firme mas diplomático ao comentar os laivos golpistas nas Forças Armadas; desmascarou a narrativa midiática de que a proposta de trégua humanitária na guerra Israel-Hamas, feita pelo Brasil no Conselho de Segurança da ONU, teria sido um “fracasso”; criticou o poder de veto dos cinco membros permanentes daquele conselho; tratou da questão das mulheres na composição do governo e das indicações para vagas importantes como a da Procuradoria-Geral da República (PGR) e a do(a) próximo(a) ministro(a) do STF.
BRUNCH CIVILIZADO, EDITORES RAIVOSOS
Na verdade, o “café da manhã” com jornalistas foi um “brunch”: começou pouco antes do meio dia com uma fala de cerca de 6 minutos do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), o deputado federal e jornalista Paulo Pimenta. Ele fez o registro de que todos os programas sociais criados nos governos do PT e que tinham sido interrompidos desde 2016, mas especialmente no governo do miliciano, foram retomados – o último a ser relançado foi o “Luz para Todos”.
Pimenta também lembrou do protagonismo e da responsabilidade que o Brasil volta a ter na geopolítica, atualmente presidindo o Mercosul e com Lula, a partir de dezembro, assumindo a presidência do G-20. Também foi destacada a escolha de Belém, capital do Pará, para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) em novembro 2025. Além disso, o ministro da Secom falou sobre a importância do recente discurso de Lula na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York – além dos 50 pedidos de reuniões bilaterais de outras nações com o Brasil.
Paulo Pimenta ainda lembrou que o Brasil é, no momento, o país Presidente do Conselho de Segurança da ONU e tem um papel central como promotor de alternativas de paz no conflito entre o (grupo militante fundamentalista islâmico) Hamas e o Estado de Israel (sob um governo genocida de extrema-direita) – os parênteses são meus. O ministro lembrou também os esforços do governo federal em trazer de volta brasileiros e brasileiras que se encontram na zona de conflito. Ufa! Só para começar.
UM PRONUNCIAMENTO HUMANO. E DE ESTADISTA
Em seguida, Lula começa cumprimentando as jornalistas e os jornalistas presentes, brinca que pela primeira vez, por ideia de seu fotógrafo pessoal Ricardo Stuckert, os fotógrafos também tinham assento no café da manhã. Falou um pouco dos seus 78 anos. Confessou o receio, por medo de anestesia, em fazer a cirurgia pela qual passou para implantar uma prótese de ligação entre o fêmur e a bacia. Detalhou como foi o processo de recuperação. Informou que está cumprindo ordens médicas de não viajar de avião neste período pelo risco de trombose e que sua próxima viagem será para COP-28, nos Emirados Árabes Unidos e, talvez, antes, para apresentar o modelo do PAC na Arábia Saudita. De acordo com Lula, 2024 será um ano inteiro de viagens dele pelo Brasil para inaugurar obras, escolas, universidades. Falou da disposição em atrair investimentos para que o Brasil se desenvolva e “dê um salto de qualidade”.
Lula lembrou como se comportou ao assumir pela primeira vez a Presidência, em 2003 – com o país em crise de confiança e numa situação péssima na economia. Pontuou que não queria fazer um balanço dos dez primeiros meses deste seu terceiro mandato: o que deverá acontecer em dezembro. No entanto, registrou que nesse período já anunciou mais políticas públicas do que nos seus quatro primeiros anos de governo, entre 2003 e 2006. O motivo, segundo ele, é o fato de que a maioria dos programas foram apenas reativados e era preciso recolocar “a casa em ordem”. Lembrou que, apenas na área do Transporte, já foi investido R$ 23 bilhões em dez meses contra R$ 20 bilhões de todo governo Bolsonaro. E frisou que essa comparação pode ser feita em todas as outras áreas do governo federal e o resultado será proporcionalmente parecido.
Mencionou as secas em grandes rios do Brasil e mais enchentes no Sul, causadas por sucessivos ciclones: consequência das mudanças climáticas e as tragédias humanitárias decorrentes.
Disse que, por outro lado, está otimista porque a previsão é de crescimento de 3% no PIB brasileiro em 2023. Avisou que, em 2024, deve ser mais difícil em função de questões geopolíticas.
Encaminhou o pronunciamento falando dos mais de 21 mil médicos no Programa Mais Médicos e que a meta é alcançar 28 mil médicos. E ainda lembrou que nem ele nem a ministra da Saúde fizeram publicidade em nenhum dos mais de 4,2 mil municípios que receberam esses profissionais da Saúde – muitas cidades que estão tendo seus primeiros médicos fixos. Falou que está comprometido em estabelecer convênios do SUS com uma rede de médicos especialistas para fazer a fila andar quando são requeridos exames mais complexos.
Lembrou que o Brasil tem, a partir de 2024, um potencial de entrar no mundo da energia verde e pode produzir e vender mais do que qualquer outro país do mundo. “O Brasil será o berçário desse novo mundo de investimento chamado ‘energia verde’”, disse. Continuou informando que o país tem 40 milhões de hectares de terras degradadas que podem ser recuperadas para a agricultura sem precisar derrubar mais nenhuma árvore.
“O Brasil já garantiu estabilidade social, estabilidade fiscal e estabilidade jurídica e previsibilidade. Então esse país se apresenta imbatível para quem quiser fazer investimento construindo parcerias para que venham produzir e não apenas, com seus fundos, explorar as taxas de juros altas”, comentou com uma nem tão sutil alfinetada no comando do Banco Central e nos especuladores financeiros.
Provocou os jornalistas: “Vocês não lembram mais de quando o Brasil cresceu 3% ao ano”. E arrematou: “Quando eu deixei o meu segundo governo, em 2010, o Brasil estava crescendo a 7,5% ao ano”.
Afirmou que vai viver muito porque tem uma causa: o Brasil e o povo brasileiro. Que precisa tirar da cabeça das pessoas a ideia de que seu governo “gosta de pobre”, o que quer, disse, é que as pessoas deixem de ser pobres, quer criar uma sociedade de classe média. “As pessoas querem vencer e o papel do governo é dar oportunidade para as pessoas vencerem, crescerem e melhorarem de vida. Por isso, vamos investir muito em educação”, discorreu.
Falando de improviso, fez chistes com suas já clássicas metáforas futebolísticas para, em seguida, falar da responsabilidade de aprovar a política tributária e mudar a relação capital-trabalho, dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras das empresas de aplicativo, por exemplo. E falou da preocupação com os jovens, que precisavam voltar a sonhar, acreditar e ter esperança. Assim finalizou seu pronunciamento inicial.
PERGUNTAS MAIS ESPINHOSAS SÃO DA MÍDIA CONTRA-HEGEMÔNICA. AS MAIS CAPCIOSAS, DA MÍDIA DO MERCADO
Na sequência, um assessor lembrou que estavam presentes 38 jornalistas e que talvez já houvesse 76 perguntas engatilhadas. Lula ainda retomou a palavra para informar que conversou com muita gente sobre a guerra entre Israel e Hamas. “Comecei falando com o presidente de Israel, falei com o presidente da Autoridade Palestina, depois com o presidente do Irã, da Turquia, do Egito, dos Emirados Árabes, da França, com Conselho Europeu, com o emir do Catar; ainda tenho de falar com o presidente Xi Jinping (da China)… e com presidente da União Europeia Pedro Sánchez, com ele para discutir os acordos com o Mercosul”.
Em seguida, começou, de fato, a entrevista coletiva. A ideia aqui não é transcrever na íntegra, mas destacar algumas respostas. No final do texto, o link para o vídeo do evento.
1) A primeira pergunta foi do jornalista do Valor Econômico que questionou se ele, com o ministro Haddad, selaram os nomes dos indicados para o Banco Central e, em seguida, cutucou dizendo que a tentativa do Brasil em mediar a guerra entre Rússia e Ucrânia não deu certo. Ainda perguntou qual a prioridade de Lula.
Da longa resposta de Lula, a melhor frase, na minha opinião, foi: “Alguém tem de falar em paz. Então eu vou continuar falando em paz”.
2) A segunda pergunta foi de Tereza Cruvinel, para o Brasil 247, que questionou sobre o crescente poder do Legislativo sobre atribuições do Executivo. Lembrou da entrega da Presidência da Caixa para garantir votos na Câmara, com o Centrão; do Senado rejeitando o nome indicado por Lula para a Defensoria Pública da União; aprovação do Marco Temporal contrariando, inclusive, decisão do Supremo – e o litígio entre o Senado e o STF. Perguntou: “Como o senhor pretende administrar esse avanço crescente do Poder Legislativo sobre o futuro do seu governo? Qual é o limite das negociações ou concessões para garantir a governabilidade?
Lula, na resposta, foi de uma diplomacia aterradora que revelou, mais uma vez, todo o seu traquejo político em driblar perguntas difíceis e bem elaboradas no que pode ser resumido nas sentenças: “Tereza, o que você está assistindo é o exercício da democracia em sua total plenitude. O Congresso Nacional existe pra isso”.
3) A terceira pergunta foi feita pela jornalista Lisandra Paraguassu, da Agência Reuters. Ela voltou ao tema do envolvimento de Lula na questão da Ucrânia. “E agora parte da sociedade diz que o governo não estava condenando o Hamas o suficiente. E como o Brasil pode negociar uma trégua e como fazer para retirar os brasileiros que ainda estão na zona de guerra?”
Lula respondeu algo que é absolutamente omitido pela mídia do mercado financeiro no Brasil. “Primeiro, o Brasil só reconhece como organização terrorista o que o Conselho de Segurança da ONU reconhece. E o Hamas não é, para o Conselho de Segurança da ONU, considerado uma organização terrorista: disputou eleições e ganhou na Faixa de Gaza. O que nós dissemos é que o ato do Hamas foi terrorista. Da mesma forma não podemos concordar com o governo de Israel que trata a guerra como se, em Gaza, só houvesse soldados do Hamas e não civis, mulheres e crianças. Essa é a posição do Brasil que foi reconhecida e elogiada nas Nações Unidas. Vi manchete de jornal dizendo que a proposta do Brasil foi rejeitada. É mentira, não foi rejeitada. Havia 15 votos em jogo, a posição do Brasil foi aprovada por 12 votos, 2 abstenções e 1 voto contra. Nossa proposta não foi “rejeitada”, ela foi VETADA por uma loucura chamada “direito de veto” dos cinco países titulares no Conselho de Segurança da ONU. O que somos radicalmente contra, isso não é democrático! E veja que nossa proposta foi apoiada por dois países que têm direito de veto: a França e a China. E duas abstenções de países com direito de veto: Rússia e Inglaterra. E os Estados Unidos assumiram a responsabilidade de vetar.
4) Leandro Fortes, do Diário do Centro do Mundo (DCM) discutiu a potencialização da tutela militar nos eventos de 8 de janeiro e antes, com os acampamentos golpistas diante dos quartéis – o que deixou claro o envolvimento das Forças Armadas em ações antidemocráticas. Pergunta se há uma estratégia nacional de defesa que intervenha na formação das escolas militares brasileiras, para praças e oficiais, para retirar o enorme contingente que está congelado na Guerra Fria, na Doutrina de Segurança Nacional, no anticomunismo, no golpismo. “O senhor acha que a reformatação da Comissão Nacional da Verdade pode ajudar nisso?”
Lula rebateu dizendo que não considerava o termo “intervenção” o mais correto. “A gente trabalha a ideia de que militar não é melhor que civil, civil não é melhor que militar. Os militares têm é de cumprir sua função constitucional. O que aconteceu, no 8 de janeiro, foi um desvio pela existência de um governante que não sabia governar e que achava que podia utilizar as instituições como instrumento dele para fazer política. Enquanto eu for presidente não tem GLO (sigla para Garantia da Lei e da Ordem – instrumento de intervenção militar). Temos uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) no Congresso que diz que o militar que quiser entrar na política que entre, mas para isso ele vai precisar deixar as Forças Armadas.”
5) Delis Ortiz, da Globo, fez a quinta pergunta. “O senhor tinha três mulheres no governo que foram substituídas por homens, dentro dessa negociação que o senhor não abre mão.” Lula interrompeu, sorrindo: “Isso não é um a pergunta, é uma afirmação verdadeira.” Na sequência, Delis, pergunta: “E as vagas na PGR e no Supremo, vão ficar para 2024, já que o senhor não tem pressa?”
Lula responde que lamenta profundamente não poder indicar mais mulheres do que homens no governo. “Mas quando a gente estabelece aliança com um partido político, nem sempre ele tem uma mulher para indicar, ainda que eu tenha pedido para fazer esse esforço. Eu quero passar a ideia de que a mulher veio para a política para ficar. Tenho disposição política de indicar mais mulheres. A segunda coisa, não é que eu não tenho pressa para fazer as indicações – é que eu estava com dores, precisando da cirurgia. Eu vou escolher as pessoas certas e adequadas em função da realidade política. (…) Talvez eu termine meu governo com mais mulheres no governo porque muita gente vai sair para concorrer no ano que vem”.
6) A repórter da Folha de S.Paulo fez a pergunta número seis. “Ainda na seara do Supremo, objetivamente, o que senhor acha do nome de Flavio Dino – que é colocado como preferencial – e se o senhor teme uma reação do Senado ao nome dele. E eu também queria saber se o senhor considera que a meta fiscal já é considerada irreal para o ano que vem. Já que o senhor disse que o ano que vem vai ser difícil, o senhor acha que o déficit zero é irreal OU A GENTE AINDA PODE CONTAR COM ISSO?
Agora, eu vou transcrever, em duas partes, a íntegra a resposta de Lula, depois de uma brincadeira dele sobre que o seu medo, pelo que ele conhece do Flavio Dino, é que a manchete de jornal seja: “Lula tem preferência por Flavio Dino”.
PARTE A – DINO E INDICAÇÃO AO SUPREMO
“Eu tenho em mente pessoas da mais alta qualificação política desse país. Muitas, não apenas uma. Obviamente que sou obrigado a reconhecer que o Flavio Dino é uma pessoa altamente qualificada do ponto de vista do conhecimento jurídico, altamente qualificada do ponto vista político, e é uma pessoa que pode contribuir muito. Mas eu fico pensando aonde é que o Flavio Dino será mais justo e melhor para o Brasil? É na Suprema Corte ou é no Ministério da Justiça? Aí tem outra pessoa que eu fico pensando: onde será mais justo, no lugar onde ele está ou na Suprema Corte? Isso é uma dúvida que eu tenho e que vou conversar com muita gente ainda, até a hora de escolher. Tá chegando a hora de escolher e vou escolher a pessoa certa. Eu tive o prazer de indicar… acho que fui o presidente que mais indicou ministros da Suprema Corte. Nunca pedi nenhum favor a eles, nunca pedi para votar alguma coisa a meu favor. Porque eu não escolho pelo critério da amizade: botar um amigo para votar o que eu preciso. Não quero isso. (A jornalista faz uma nova pergunta mas fica inaudível). Lula prossegue: “Pode, pode tudo. Pode ser homem, mulher, negro, negra. Mas tenho muito tranquilidade pelo meu acúmulo de experiência na indicação de gente. Agora que estou recuperado está chegando a hora de tomar a decisão, então logo vocês saber quem vou indicar.”
NESTE MOMENTO UM ASSESSOR ENCAMINHA O ENCERRAMENTO DA COLETIVA, MAS A REPÓRTER INSISTE NA SEGUNDA PERGUNTA SOBRE A META FISCAL
PARTE B – META FISCAL, DÉFICIT ZERO E AMBIÇÃO DO MERCADO
Lula: “Deixa eu dizer pra vocês uma coisa. Tudo o que a gente puder fazer para cumprir a meta fiscal a gente vai cumprir. O que eu posso te dizer é que ela não precisa ser zero. O país não precisa disso. Eu não vou estabelecer uma meta fiscal que me obrigue a começar o ano fazendo corte de bilhões nas obras que são prioritárias para esse país. Sabe? Então, eu acho que muitas vezes O MERCADO É GANANCIOSO DEMAIS E FICA COBRANDO UMA META QUE ELE SABE QUE NÃO VAI SER CUMPRIDA. Eu sei da disposição do Haddad, sei da vontade do Haddad, sei da minha disposição e quero dizer pra vocês que nós, dificilmente, chegaremos à meta zero. Até porque eu não quero fazer cortes de investimento em obras. E se o Brasil tiver um déficit de 0,5%? O que é? 0,25 o que é? NADA! Praticamente nada! Então nós vamos tomar a decisão correta e fazer aquilo que é melhor para o Brasil.”
Até aqui foram 1 hora e 18 minutos de transmissão.
Lula falou ainda mais poucos minutos agradecendo a presença dos jornalistas e lamentou que foi impossível que todos fizessem perguntas. Assegurou que até o fim do ano ainda fará um balanço de governo noutro encontro com os jornalistas. No final, Lula brincou com o ministro Paulo Pimenta que “a imprensa está com tão boa cabeça que achava que chegaria e teria um monte de presentes”. “Não vi um!”, riu. O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Márcio Macedo, foi profético num breve comentário: “O presente será a repercussão!” Lula ainda teve a grandeza de, sutilmente, vetar a proposta de um “Parabéns pra você!” feita por Pimenta dizendo que o mundo está mais pra tristeza do que para a alegria com a morte de tantas crianças na guerra. Mesmo assim, o “parabéns” foi puxado e saiu xoxo.
No mesmo dia, nos sites de notícias da mídia comercial vinculada ao mercado financeiro, Lula recebeu muitos presentes… “de grego”. Todos reproduzidos, no dia seguinte, 28 de outubro, em manchetes dos principais jornais da mídia que é a voz do mercado financeiro. Sem exceção, recortaram apenas a fala final do presidente sobre a não necessidade de “déficit zero”, passaram recibo pela crítica feita por ele sobre a “ganância do mercado” em editoriais raivosos, artigos de “jornalistas” que são as vozes dos donos e de “especialistas” que são oposição declarada ao programa de governo vitorioso nas urnas nas eleições de exato um ano atrás.
Depois, disso tudo, acho que não resta dúvida sobre quem, de fato, sabota o país e a sua principal liderança política.
*Jornalista
ASSISTA AQUI A ÍNTEGRA DO PRONUNCIAMENTO E DA COLETIVA DE IMPRENSA
A MÃO DE FARACO, COMPOSTA EM 2018, AGORA É LANÇADA COMO SINGLE E NOS SACODE COM A DURA REALIDADE DE QUE AINDA TEMOS MUITA TREVA A ATRAVESSAR
*Por Henri Figueiredo
Foi lançado um single do cantor, compositor e genial mestre das cordas Márcio Faraco, gaúcho de Bagé, filho de gaúcha com pernambucano. Marcio viveu a infância no Recife e a juventude no Rio de Janeiro até que, em 1992, mudou para Paris e de lá só sai para turnês pela Europa – onde lota teatros e casas de espetáculos com os amantes do melhor da música brasileira.
Faraco é mais conhecido fora do Brasil. Consta que foi o Chico Buarque que o incentivou a começar a escrever suas próprias letras, instrumentista virtuose que sempre foi. Humanista, diria até um iluminista contemporâneo, falam que tem personalidade difícil e é muito reservado.
Essa linda canção de luta pode soar um tanto fora de tempo, sendo relançada só agora como single no Spotify – especialmente para nós, da Resistência Democrática, depois da vitória eleitoral em âmbito nacional contra o fascismo na mais difícil eleição da história brasileira, em 2022. Na terceira audição da canção me dei conta, um tanto chocado com a constatação, de que temos de fato um longo caminho de dor e loucura numa noite escura em que não podemos nos perder.
Acho que esse relançamento, agora no streaming, RESSIGNIFICA, em 2023, a frase que adotamos como autodefesa e unidade diante da barbárie instalada desde 2016 e aprofundada depois de 2019: “NINGUÉM SOLTA A MÃO DE NINGUÉM”. Eu ouço como um alerta, não tardio, porque Faraco, bardo, lembrava à época: vão tentar dividir para conquistar – e isso, hoje, continua em curso com nossa frente ampla se digladiando por dentro. Não podemos nos perder. Ouçam essa preciosidade à altura lírica de Vinicius e Chico; da cepa harmônica e de arranjo que lembra Tom Jobim, Aldir e P.C.Pinheiro, Gonzaguinha, Belchior, Baden Powell – aliás “Berimbau” é lembrada numa frase musical. OUÇAM ESSA PRECIOSIDADE! O vídeo no primeiro comentário. Procurem no Spotify.
Mão na Mão
(Márcio Faraco)
As águas nos olhos do seu Francisco
O chão vermelho de Salvador
João e José juntos correm risco
Ela não voltou da noite de horror
Pobres, índios e negros na mira
São sempre os mesmos suspeitos
O menino corre, o drone atira
E a televisão diz: “bem feito!”
Ninguém solta a mão de ninguém
Eu sei que a noite será escura
Um longo caminho, de dor e procura
Mas não podemos nos perder
Vão nos ouvir, vão nos perseguir
Vão querer nos calar, vão nos reprimir
Vão delatar, vão espionar
Vão tentar dividir para conquistar
Quando o silêncio chegar
Querendo nos impedir
Nunca deixaremos de cantar
Mão na mão vamos resistir
Ninguém solta a mão de ninguém
Eu sei que a noite será escura
Um longo caminho, de dor e procura
Mas não podemos nos perder
Ninguém solta a mão de ninguém
Eu sei que a noite será escura
Um longo caminho, de dor e loucura
Mas não podemos nos perder
Ninguém solta a mão de ninguém
Ninguém solta a mão de ninguém
——-
Ficha Técnica
Márcio Faraco – violão e voz
Julio Gonçalves – percussão
Ricardo Feijão – baixo
Zé Luiz Nascimento – percussāo
Robson Galdino – cavaquinho
Cacao de Queiroz – clarineta
Sérgio Galvão – clarineta
Ana Guanabara – coro
Virgínia Cambuci – coro
Naïa Sotolongo – coro
Gravação
Studio Robsound/Paris
Videoclipe
Direção e produção
João Pedro Nogueira
© Copyright Márcio Faraco – 2018
AFINAL, A ‘ESQUERDA’ REALMENTE PERDE DE GOLEADA PARA ‘DIREITA’ QUANDO O ASSUNTO É MÍDIA DIGITAL?
*Por Henri Figueiredo

É muito frequente, desde o golpe de Estado de 2016, lermos em grupos de Facebook, depois Whatsapp, Telegram e, inclusive, em artigos publicados na imprensa (ligada ou não ao mercado financeiro) que “a Esquerda perde de 7 x 1, 10 x 0 ou 22 x 13 da Direita” quando se trata de comunicar e organizar sua militância especialmente nas novas mídias digitais. Será bem assim? Ora, tive uma lição inesquecível na universidade – de um querido professor militante de Esquerda e ex-secretário de Comunicação do PT nos seus grandes anos em Porto Alegre –, lição válida e aferível ainda hoje. Ei-la: se somarmos os profissionais de comunicação social, com foco nos jornalistas, das centrais sindicais combativas e não pelegas, mais a tropa de jornalistas, fotógrafos, designers etc. de sindicatos ligados a essas centrais, mais toda a companheirada que atua na comunicação dos gabinetes de parlamentares, bancadas, partidos políticos do campo democrático popular, movimentos sociais etcetera etcetera, chegaremos a um volume tamanho de gente qualificada pra fazer boa comunicação digital que supera, em muito, o número de profissionais que estão produzindo conteúdo nos veículos ligados ao capital como Grupo Globo, Bandeirantes, Record et alli.
Houve uma máxima que eu passei a combater internamente em campanhas eleitorais, nas quais integrei ou dirigi a Comunicação, que dizia: “Se perdermos a eleição será por causa da comunicação. Se ganharmos a eleição, será apesar da nossa comunicação”. Hoje, ao que parece, a máxima mudou na Era Digital para a analogia futebolística que titula este breve artigo mas a ideia de fundo é a mesma: somos incompetentes, nós os profissionais de comunicação de Esquerda e também a militância ativista em redes, para enfrentar esse monstro, essa quimera assustadora, esse poderio digital da Direita.
Sem a pretensão de redefinir a lei da gravidade – que foi desafiada com méritos por Santos Dumont e outros de sua época –, nem querer reinventar a roda – o que ainda hoje ninguém conseguiu talvez porque deixamos de ensinar geometria com qualidade em todo sistema de ensino –, vou enumerar algumas questões que problematizam (adoro esse neologismo) essa percepção generalizada. Percepção, aliás, da qual discordo não apenas por ser profissional e ativista de comunicação popular no campo democrático e na área digital, mas também porque já vivi batalhas vitoriosas contra partidos, coligações e até mesmo conglomerados de mídia que, não obstante terem os mais modernos meios de produção, recursos financeiros e empregados competentes e inovadores, mesmo assim não foram capazes de vencer nossas ideias, propostas e políticas. Friso: ideias, propostas e políticas – porque sem elas, não há comunicação impressa, verbal, digital, telepática ou psicografada que dê jeito. Vamos aos pontos:
1) A disrupção da hegemonia da comunicação impressa, radiofônica e, principalmente, televisiva em campanhas eleitorais se deu em 2008 quando o candidato do partido Democrata Barack Obama conseguiu arrecadar muito mais dinheiro via Facebook do que pelos métodos tradicionais de até então e de até hoje, diga-se: doações de milionários, jantares vip e ação de lobistas, por exemplo. À diferença da quebra capitalista de 2008, a maior desde a de 1929, os efeitos da crise mundial só chegaram no Brasil a partir de 2013 – e, ainda assim, conseguimos reeleger Dilma em 2014 na maior frente de Esquerda construída desde aquela de 1989 organizada para derrotar Collor. (Brindemos às batalhas que perdemos juntos, escreveu Drexler.) De maneira parecida, o uso das novas mídias digitais – e aí vou focar nas redes sociais – só começou a ser levado a sério a partir da campanha de 2014, tanto pela Esquerda quanto pela Direita. E a Esquerda, naquele ano, contra a mídia comercial hegemônica, contra os movimentos radicalizados das jornadas de junho e julho de 2013 – cuja pauta foi sequestrada e deturpada por grupos fascistas –, contra toda a Direita, o mercado financeiro, o agronegócio e os EUA alinhados com Aécio, ainda assim saiu-se vitoriosa. Ao menos por algumas semanas – mas não vou lembrar do Levy agora, até porque de maneira leviana tem gente que hoje tenta fazer uma falsa equivalênca entre ele o nosso atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Resumo: em 2014, a Esquerda ganhou de goleada da Direita nas redes sociais e mídias digitais e esse foi um fator decisivo para a reeleição de Dilma.
2) A Direita não é burra. A burrice é uma característica intrínseca de parcelas como, num extremo, o bolsonarismo com laivos nazifascistas e, noutro extremo, de setores radicalizados de Esquerda que pregam a revolução comunista e a ditadura do proletariado nos moldes de 1917 sem perceber que tudo no mundo mudou, principalmente o mundo do trabalho que é de onde, teoricamente, deveria nascer, crescer e prosperar esses movimentos junto aos campesinos. Falta só combinar com o MST, por exemplo, que hoje é o maior produtor de arroz orgânico, sem pesticidas, do Brasil e, provavelmente do continente. Pelo fato de a Direita não ser burra, portanto, é que rapidinho ela entendeu o que aconteceu na eleição de Obama e cooptou a principal jovem que desenvolveu o sistema de arrecadação via internet. Mediante bilhões (money talks) levou a garota para suas fileiras, tornando-a vice-presidente da famigerada e extinta Cambridge Analytica, em Londres. No Brasil, de maneira semelhante, a Direita passou a formar, desde a cooptação nos movimentos estudantis de ensino médio e universitário, um grupo para o qual foram pagas viagens, cursos e um “mindset” (programação, lavagem cerebral) liberalóide quando não abertamente neofascista. Poderia listar uma dúzia de deputados e deputadas federais e estaduais (alguns já em terceiro mandato) que são crias desse movimento internacional conservador e extremista que tenta combater o moinho de vento que eles chamam “marxismo cultural” (perdão, Cervantes, por alusão tão pobre de sua principal obra).
3) Militante é militante. Ativista digital é ativista digital. Uma criatura que dizem que existe, parece lenda mas existe, eu já vi, é o militante que também é ativista digital. Tenha-se por “militante” aquele que vai à reunião, que debate presencialmente, que não falta à plenária, que põe o pé na poeira, no barro e na lama para entrar nas quebradas mais pobres e falar com o povo que nada tem. Tenha-se por “ativista digital” aquele que usa todas as suas redes para fazer política, defender seu campo, seus nomes que pleiteiam cargos eletivos, para defender pautas de interesse público e/ou corporativo. São dois espécimes da mesma família cujo cruzamento, em cativeiro ou naturalmente, produziu o militante digital. É raro e, como híbrido, é mais forte, menos propenso a doenças infantis como o esquerdismo. Resiliente pode passar anos a fio tentando convencer tanto os militantes raiz quanto os ativistas digitais nutella que “todos somos um só”, “que todos precisamos trabalhar nas redes e nas ruas”. Eu sinto empatia pelo militante digital. Poderia até dizer que eu mesmo, aos 50 anos, sou uma exemplar ancestral, quase arqueológico, desse espécime.
4) Teve um momento de virada em que a Direita, de fato, assumiu a liderança em ‘fazer política’ via redes sociais. O problema é que, em geral, as práticas eram tão podres quanto historicamente foi o discurso mentiroso dos poderosos para cabalar, ou cabrestear, voto de pobre. Explico: a direita começou a usar as redes sociais abusando de perfis falsos e, do anonimato, espalhando mentiras, notícias falsas (fake news) e assassinando reputações. Foi tão avassalador que um dia ouvi de um prefeito, ex-sindicalista: “Precisamos fazer o mesmo que eles, ou então vamos perder!” A custo o convenci do contrário: não podemos nos rebaixar ao esgoto da política, temos meios de, sem mentir, sem produzir fake news, mobilizar as pessoas tratando do que interessa as pessoas: pão, paz e terra (obrigado, bolcheviques e, depois, e a Teologia da Libertação). Lembro que tratei, em um artigo de 2019, da pauta identitária. Nele cito e volto a citar a Cynara Menezes, nossa querida Socialista Morena, que racionava algo do tipo: a gente, como Esquerda, quer lutar para fazer a sociedade evoluir, avançar, ou vamos, para ganhar eleições, fazer o mesmo jogo vil, baixo, mentiroso e contagioso que está fazendo a sociedade não só se atrasar mas andar para trás? Vejam bem, sendo pragmático e tendo vivido a Realpolitik, é claro que “nós” fizemos também o jogo rasteiro nas redes – entramos na trincheira do inimigo e alguns tomaram gosto. Mas a utopia serve para caminhar, para olhar em frente e seguir, já citava Galeano.
5) O rádio não acabou com o telegrama. A TV não acabou com o rádio nem com o telegrama. O cinema não acabou com a TV. O streaming da Netflix, Globoplay e assemelhados não vai acabar com o cinema. No entanto, contudo, porém, as redes sociais estão acabando com a saúde mental de parcelas cada vez maiores da população mundial – em todas as faixas etárias. É tóxico. Não sou eu que digo. Já que vocês estão com o celular na mão, ou em frente a um black mirror, deem um Google “redes sociais, saúde mental, ciências, pesquisas”.
6) É preciso regular, no mundo inteiro, o uso das redes sociais e das mídias digitais. Assim como nos EUA e em vários países europeus, o Brasil também já está trabalhando nisso. O deputado federal Orlando Silva (PCdoB) é o relator do nosso projeto. Lembrando que o Brasil aprovou um belíssimo “Marco Legal da Internet”, à época relatado pelo então deputado federal Alessandro Molon. Virou letra morta. Nosso trabalho militante hoje é fazer com que a lei relatada por Orlando Silva seja aprovada e “pegue”.
7) Assim como existe uma vasta rede subterrânea (isso é uma metáfora, ok?) de haters (odiosos odiadores), que se espalhou para a juventude dos games (aficciondos em jogos on-line) e tem criado células autodenomidas “red pill” (uma distorção criminosa de uma ideia genial das irmãs Warchoski no primeiro “Matrix) de onde estão saindo sociopatas assassinos de crianças em escolas, misóginos e teóricos da conspiração ultradireitistas, existe também uma grande rede de influenciadores humanistas, antirracistas, feministas, pela liberdade religiosa, pela livre orientação sexual. Aliás, falando nisso, talvez o melhor nome para definir a sociopatia do jovem (ou nem tão jovem) que passa o dia on-line falando mal de mulher, da Esquerda e de tudo que ele tem medo, não conhece ou não entende é INCEL, os celibatários involuntários, na sigla em inglês. Aí eu penso como, de fato!, Wilhelm Reich, o psiquiatra austríaco que foi, com Jung, um dos principais orientandos de Freud, tinha razão ao conceituar a “peste emocional” da qual está acometida toda sociedade moralista, que vive guerreando (inclusive dentro de casa) e sufocando sua atração sexual, sua pulsão vital, trocando-as por crença religiosa, vibrando sua baixo auto-estima, sofrendo e reagindo pela sua incapacidade de ouvir nãos, ou por negação do próprio desejo. Meninos mimados não podem reger a nação, disse Criolo – numa referência a 01, 02 e 03. Meninos doentes não podem amedrontar a nação. A rede é tóxica e, todavia, reflete uma sociedade adoecida que precisa de cura. Como? Reich e Paulo Freire teriam, sem dúvida, as respostas. Aliás, eles se foram, mas alguma das respostas estão em suas obras.
Afinal, a Esquerda perde de goleada para Direita nas redes sociais? Esse foi o mote, o gancho, a faísca que me fez sentar aqui e escrever no fluxo da consciência. Acho que não respondi. Só criei mais dúvidas e fiz digressões correlatas mas, quero crer, importantes para o contexto. Dou-me conta: trata-se de uma falsa premissa. Se mergulharmos por alguns segundos, e de olhos bem abertos, nos conceitos com os quais trabalhamos, talvez enxerguemos que o conjunto da sociedade está “perdendo de 10 x 0” para redes sociais. Encerro por aqui tais elucubrações porque provavelmente o busílis da questão não esteja mais na disputa democrática de ideias, conceitos, interesses; talvez a chave esteja na saúde mental. Agora me deem licença que vou bater um papo com a minha Inteligência Artificial – preciso fazê-la aprender algumas expressões idiomáticas e não responder ao pé da letra, como nos ensinou o cineasta e roteirista Jorge Furtado ao perguntar pra sua IA: “Em caminho de paca, tatu caminha dentro?” A resposta da IA: “Não é comum que os tatus caminhem dentro de caminhos de pacas, já que esses animais geralmente têm hábitos noturnos e solitários, e não costumam compartilhar tocas ou buracos com outras espécies”.
*Henri Figueiredo é jornalista e, nos últimos anos, perdeu a paciência para revisar seus próprios textos. Militante filiado ao PT, é ativista digital e tem a HMF, que faz consultoria em mídia e cultura.
O TEMPO FOGE
*Por Henri Figueiredo
RIO DE JANEIRO | No próximo 7 de abril, meu site completa 10 anos – o lancei, em 2013, porque sentia na eletricidade do ar a disrupção de uma maneira de comunicar e o surgimento de outra: o que, de fato, aconteceu nas famosas jornadas de junho e julho de 2013. Politicamente fui, no início, a favor – ainda que o repórter em mim farejasse algo podre no ar. Antes de julho chegar ao fim, estava completamente no combate àquele tipo de (des)organização “horizontal” que foi tomada, por dentro e por fora, pelos fascistas e serviu de massa de manobra de multidões (alguns, inclusive, sinceramente ‘bem intencionados’) contra o governo federal. No entanto, a comunicação digital, o poder de um(a) jovem ativista com uma câmera e uma boa banda de internet deixou claro que as águas estavam divididas. Dilma, enfim, à época, com erros e acertos, confrontava o tal “mercado financeiro”. Nunca foi por vinte centavos. Mas a luta contra o rentismo, os juros escorchantes e a brutal desigualdade a que isso leva hoje, uma década depois, nos vemos na premência de ressuscitar, reviver e vencer para que a combalida soberania do Brasil sobreviva.
Bem, vou dando voltas, digressão a digressão, mas retomo o ponto inicial: escolhi 7 de abril por ser o “Dia do Jornalista”, estabelecido pela ABI em homenagem a Badaró – que manteve um jornal crítico ao Império. O nome, em latim, “Tempus fugit”, o tempo foge, sempre me tocou e mesmo sabendo que já era o nome do site do saudoso Rubem Alves, ainda assim o adotei para o meu blog pelo tanto de significado que encerra pra mim e pra muitos. Algum vetusto editor do século XX chamaria esse meu longo intróito de “nariz de cera”: “-Ora bola, vamos direto ao ponto. O que, quando, onde, como e por que! O lead, diabos! O LEAD!”
A técnica do texto jornalístico se aprende em meses até entrarmos no automático. Há décadas considero as faculdades de jornalismo meras oficinas preparatórias para funcionáros das empresas da mídia comercial e para o exército de reserva, os desempregados, que estarão ali, com seu diploma debaixo do braço, assinando seus textículos como “jornalista diplomado”… e desempregado, como a maioria deveria acrescentar. Falta consciência de classe nessa turma. Sobra soberba. Bela profissão liberal que, ao contrário das outras nascidas ou renascidas no Iluminismo, hoje forma uma tropa dispersa, dividida pelas ideologias, pelo corporativismo mais tacanho e pelo dogmatismo míope da maioria das “lideranças” nacionais da categoria.
Se você chegou até aqui, obrigado. Foi tudo também para relembrar o belíssimo texto de Ricardo Gondim que viralizou (ah, adoro neologismos) quando Abujamra o disse, como quem nos fere a punhal, em seu programa “Provocações” na TV Cultura, hoje à cargo de um velho repórter Ernesto Varela, digo, Marcelo Tas – que pelo bem do pensamento e do humor nacional jamais ter deveria ter saído do personagem Varela. Que falta faz Antonio Abujamra para o pensamento nacional na televisão aberta.
O Tempo Que Foge
Eu contei meus anos.
E descobri que tenho menos tempo para viver daqui pra frente do que já vivi ate agora.
Eu tenho muito mais passado do que futuro.
Então já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Eu não quero reuniões em que desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos cobiçando lugar de quem eles admiram.
Eu já não tenho tempo para conversas inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Eu já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas idosas, mas ainda imaturas.
Eu detesto pessoas que não debatem conteúdos, mas apenas rótulos.
Eu quero viver ao lado de gente que sabe rir, sabe rir de seus tropeços. Não se encanta com triunfos. Não se considera eleita antes da hora. Não foge de sua mortalidade.
Eu quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
Apenas o essencial faz a vida valer a pena, e para mim, basta o essencial. [Ricardo Gondim]
30 de março de 2023
EU SOU MAIS O SAMBA
*por HENRI FIGUEIREDO

RIO DE JANEIRO – Como quase todo guri gaúcho da minha geração, eu cresci junto com o iníco da cena pop-rock brasileira. No RS, especialmente, com o punk-rock. Sempre gostei da MPB que dominava as rádios do RS no fim dos anos 70 e início dos 80 – acreditem, crianças. Claro, sempre houve jabá, mas um jabá que promovia Elis Regina, Chico Buarque, Gil, Caetano, MPB4, Alceu Valença, Zé Ramalho, Fagner, Belchior, Leila Pinheiro, Zizi Possi, Marina Silva e, claro, toda aquela cena pop rock da qual a minha banda favorita, até hoje, é a LEGIÃO URBANA.
Antes mesmo de chegar ao Rio, em 1993, com 20 anos recém-feitos, eu já estava com o ouvido apurado para a Bossa Nova – influência de amigos como Nando d´Ávila, Zé Caradípia, Evania Reichert, Marcel Gusmão e da minha turma que batizamos de a “Tribo das Quartas”. Era muito menino quando surgiu, em fins dos 70, a chamada Música Popular Gaúcha (MPG) que deveria, na minha irrelevante opinião chamar-se Música Urbana Gaúcha (MUG) com Bebeto Alves (que chegou da fronteira fazendo a fusão dos ritmos cisplatinos com o rock e o pop); Nelson Coelho de Castro (cujo violão, a lírica e o compasso ficava entre a bossa nova, o Clube da Esquina e a vanguarda paulista de Arrigo Barnabé, Ná Ozetti, Zé Miguel Wisnik, Tatit e outros); Gelson Oliveira, com seu timbre de negro, inigualável,seu violão excelente e sua também fusão mais para a MPB; e Totonho Villeroy (depois Antonio por ser um nome mais “internacional” quando assinou com gravadora no Rio). Villeroy é o maior hitmaker da Ana Carolina mas muito, muito mais que isso. Lembro dele desde garoto nas belas noites boêmias na maior casa de samba da Cidade Baixa, em Porto Alegre – um bairro roqueiro por natureza.
Cheguei, enfim, ao samba – e foi no Rio, justamente no Carnaval de 93 que meu coração explodiu de alegria e êxtase ao ver o Setor 1 inteiro cantar com o Salgueiro, que seria campeão naquele ano: ô sorte!, como diria o grande e saudoso baterista Wilson das Neves, o preferido de Chico Buarque e meia MPB.
Depois dos anos tristes e graves de pandemia e bolsonarismo, que mancharam de silêncio, luto e caos nossas vidas, vem chegando, enfim, o Carnaval Redentor de 2023. Eu, de volta ao Rio de Janeiro desde 30 de dezembro de 2020, tenho agora a possibilidade de exorcisar os fantasmas destes anos “em que só os ratos” conheceram fartura, como escreveu a roqueira baiana Pitty – outra grande mulher, magnífica cantautora de nossa época. E, se desde 2020, eu venho dando um aperto de saudade no meu tamborim, agora meu tamborim ecoa alto junto com os amigues de Santa Teresa, nos ensaios do Bloco Carmelitas (um dos mais tradicionais da cidade) e no qual eu ainda preciso melhorar muito, mas muito, para fazer jus aos bambas que por lá tocam – ainda que de maneira muito carinhosa (e arriscada
)eu tenha sido convidado para os ensaios.
No sábado, dia 21 de janeiro, participei do primeiro ensaio do Bloco Aconteceu, também de Santa Teresa. Dessa vez, eu cheguei no início e achei que me adaptei melhor à levada. Mas venho pisando nesse chão devagarinho, com humildade, respeito e muito ensaio em casa no meu tamborim de estudo – presente do querido Kléber Komká cujo Batuque Digital foi minha escola no instrumento.
Tenho seguido a opinão dos mestres de tamborim por onde arrisco levar meu instrumento: pratique, participe de ensaio de todos os blocos que puder, toque em casa todos os dias. E tenho usado meu tamborim de estudo feito de naylon perfurado, que quase não emite som e é patenteado pelo Batuque Digital do Kléber e do meu saudoso amigo DJ Goody.
Agora, ensaiando, treinando, batucando achei uma canção de 1971 de Candeia que expressa bem o meu momento. Pra quem nunca abandonou o rock, a MPB, a boa música, a época é de samba. E diz o mestre Candeia, uma das estrelas-guia da minha águia portelense, fundamental para a negritude brasileira, num partido alto que, SEM NEGAR AS ORIGENS, diz que “OS BLAKCS DE HOJE EM DIA SÃO OS SAMBISTAS DE AMANHÔ (com o áudio no primeiro comentário):
Eu não sou africano, eu não
Nem norte-americano!
Ao som da viola e pandeiro
sou mais o samba brasileiro!
Menino, tome juízo
escute o que vou lhe dizer
o Brasil é um grande samba
que espera por você
podes crer, podes crer!
À juventude de hoje
dou meu conselho de vez:
quem não sabe o be-a-bá
não pode cantar inglês
aprenda o português!
Este som que vem de fora
não me apavora nem rock nem rumba
pra acabar com o tal de soul
basta um pouco de macumba!
Eu não sou africano!
O samba é a nossa alegria
de muita harmonia ao som de pandeiro
quem presta à roda de samba
não fica imitando estrangeiro
somos brasileiros!
Calma, calma, minha gente
pra que tanto bambambam
pois os blacks de hoje em dia
são os sambistas de amanhã!
Eu não sou africano!
“NADA A TEMER SENÃO O CORRER DA LUTA”

Por Henri Figueiredo
RIO DE JANEIRO | Começo ouvindo “Caçador de Mim”, de 1981, canção de Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá, eternizada na voz do gênio Milton Nascimento, em pleno regime militar. Diz o refrão: “Nada a temer senão o correr da luta | Nada a fazer senão esquecer o medo | Abrir o peito a força, numa procura | Fugir às armadilhas da mata escura (…) Longe se vai sonhando demais | Mas onde se chega assim?”
Escrevo na manhã de terça-feira, 10 de janeiro de 2023, depois de dois dias intensos acompanhando pelas mídias comerciais, digitais e alternativas de Esquerda os acontecimentos e desdobramentos da tentativa frustrada de golpe de Estado perpetrada por seguidores extremistas de Jair Bolsonaro. Eram oriundos de todos os cantos do país e, em Brasília, vandalizaram os três principais marcos da República: o prédio do STF, o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.
Entre a indignação pelo vandalismo terrorista da massa de manobra (que foi carreada literalmente como gado ao Distrito Federal), com a inédita e veemente condenação midiática de praticamente todos os veículos comerciais, que são a voz dessa entidade chamada “O Mercado”, veio também uma certa euforia pela ‘flopada’ histórica da tentativa de instauração de um novo Estado de Exceção no Brasil – a mais grave tentativa desde a promulgação da Constituição de 1988. De outra parte, li e leio intelectuais a quem respeito profundamente demonstrando um pessimismo que eu diria mais serve para paralisar do que para mobilizar os democratas. Explico: os temerosos consideram que, ao contrário de arrefecer o movimento golpista, as imagens de “demonstração de força bolsonarista” servirão para acirrar mais ainda os ânimos, dividir e incendiar a Nação.
Data venia, discordo com veemência. Nada a temer senão o correr da luta. Por isso, foi importante o povo democrata, em todas as regiões do Brasil, em dezenas de importantes cidades além das capitais dos Estados da federação, sair às ruas para gritar “Sem anistia!”. O Brasil tem, enfim, a grande oportunidade de acertar as contas com sua própria história. E nunca houve um evento que tivesse o poder de unificar os divergentes, mas democratas, como o que o ocorreu no fatídico domingo 8 de janeiro, dois anos e 2 dias depois da invasão do Capitólio por extremistas trumpistas nos EUA e cuja referência, correlação e articulação internacional é mais que evidente.
Nada a fazer senão esquecer o medo. A hora, companheiros e companheiras, amigues (lidem com a novilíngua de gênero neutro) é enfrentamento duro, diário, constante contra os golpistas. Li de uma amiga de Porto Alegre, Ana Vilk, a seguinte informação, plena de ironia, nas redes: “Moro num condomínio gigante. Fui dormir havia várias janelas com bandeiras do Brasil. Fui contar agora, há três. Devem estar viajando”. O principal âncora do Jornal Nacional chamou os radicais bolsonaristas de “vergonha de suas famílias”. A sociedade cobra exemplar punição, apesar da leniência das polícias bolsonarizadas que permitem presos acusados de terrorismo e golpe de Estado portarem seus celulares como se estivem apenas num refúgio público após uma tragédia natural. As autoridades policiais da União, comandadas pelo ministro da Justiça Flávio Dino, ex-juiz federal, ex-governador do Maranhão (além de ser senador eleito), já rastrearam os financiadores dos ônibus. Começarão as intimações e pedidos de prisões temporárias ou preventivas, como ele mesmo informou.
Bem apontou um documento interno da tendência petista Democracia Socialista cujo trecho reproduzo: ““Após nove anos de resistência — iniciada com a ofensiva neoliberal contra o segundo governo Dilma, prosseguida com o governo Temer e aprofundada com o governo Bolsonaro — a vitória democrática e popular com a eleição de Lula inaugura um novo período da luta de classes no Brasil. Repõe em novas condições e com novos (e velhos) desafios a possibilidade da luta pela transformação democrática e socialista no Brasil com amplo impacto internacional.” E é, amigues, esse apoio internacional à Lula e à democracia brasileira, amplamente divulgado pela mídia de todo mundo, é o fiador de que a normalidade democrática será restaurada. Mas não por inércia. Só o povo na rua garantirá o sufocamento, a vergonha, a criminalização do ódio terrorista e o recuo miliciano.
Temo, de um lado, ter apenas repetido platitudes. Por outro lado, longe se vai sonhando demais. E sonho que se sonha junto, realidade torna-se. Por isso, às ruas. Estejamos atentos e vigilantes. O medo não é mau, em si – nos faz medir os riscos. Neste momento, porém, a coragem se impõe como a caçadores que na mata escura sabem que a besta fera é violenta, mas precisa ser abatida. Atentos às armadilhas fascistas. Não passarão!